Rápido e devagar – Duas formas de pensar

Rápido e devagar - Duas formas de pensar

"Thinking, fast and slow" é, na opinião do Financial Times, uma obra-prima. "É um ponto de viragem no modo de vermos nós mesmos", segundo o The New York Times. Por sua vez, a The Economist, compara o livro às teorias de Darwin e Copérnico, pela proposição de uma nova linha de raciocínio científico. A principal contribuição da obra de Daniel Kahneman, vencedor do Nobel de Economia, é o desenvolvimento do conceito de dois sistemas de pensamento: o número 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o número 2, devagar, lógico e ponderado. O conhecimento do livro e suas teses é essencial para quem trabalha em marketing e comunicação, pois ajuda a entender melhor como a mente dos consumidores opera. Mas além dessa leitura, uma mais profunda e especializada pode ser feita, pelos mais próximos à psicologia, pois faz uma ampla e profunda análise de como o cérebro dos humanos funciona e de como evoluíram as teorias nesse campo.

O best-seller global esteve por muitos meses na lista dos mais vendidos em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde foi publicado pela Objetiva, e resume décadas de estudos do autor e de alguns de seus colaboradores em universidades de Israel e dos Estados Unidos, em especial Amos Tversky, a quem o livro é dedicado.
A semente do pensamento que redundou no livro anos depois foram dois artigos da dupla, o primeiro, de 1974, saiu na revista Science e teve o título de "Judgment under uncertainty: heuristics and biases"; o segundo, um paper apresentado e premiado pela American Psychological Association em seu encontro anual de 1983, foi denominado "Choices, values, and frames(ambos os textos estão no apêndice da obra).
O livro tem cinco partes: Dois Sistemas, Heurística e Viéses, Excesso de Confiança,  Escolhas e Dois Eus. De suas quase 500 páginas, mais de 30 são notas com a remissão a outras obras e teorias, substanciando a grande erudição de seu autor sobre o tema e dando o caminho para a ampliação do conhecimento sobre os muitos pontos específicos abordados.

 

Dois Sistemas

 

Na Introdução, antes de iniciar a primeira parte da obra, Kahneman lembra a importância da linguagem no processo de conhecimento humano, dando como exemplo o fato de que "aprender sobre medicina é, em parte, dominar a linguagem da medicina". Também discute a questão do pensamente consciente e inconsciente, destacando que "a maioria de nossas impressões e pensamentos chega à nossa experiência consciente sem que a gente saiba como elas chegaram lá" e que "o trabalho mental que produz impressões, intuições e muitas decisões acontece no silêncio de nossa mente inconsciente".
Depois, entra no tema das estatísticas, que será parte muito relevante dos temas abordados no livro, observando que de um modo geral não somos bons estatísticos intuitivos, incluindo os próprios estatísticos profissionais.
Sobre o processo de intuição, o autor lembra que "até a intuição mais acurada de especialistas é mais explicada pelos efeitos de sua prolongada prática do que pela própria heurística" (que é um processo cognitivo empregado em decisões não racionais, sendo definida pelo estratagema de ignorar parte da informação com o objetivo de tornar a escolha mais fácil e rápida). Também ressalta que "intuição é nada mais nada menos que uma forma de reconhecimento".
No primeiro capítulo da primeira parte é apresentada uma definição sucinta dos dois sistemas de pensar (que foram originalmente propostos por Keith Stanovich e Richard West):
Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário.
Sistema 2 aloca atenção às atividades mentais laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos. As operações do Sistema 2 são muitas vezes associadas com a experiência subjetiva de atividade, escolha e concentração.
No detalhamento sobre a características dos dois sistemas, Kahneman fez uma observação importante, de que "apesar do Sistema 2 acreditar que ele está onde a ação acontece, a verdade é      que o automático Sistema 1 é de fato o herói deste livro". Ou seja, o autor já antecipa que na maior parte das vezes nossa mente acaba funcionando através do Sistema 1.
Após destacar outro aspecto natural de nossa mente - de que "nós podemos ficar cegos diante do óbvio, mas também ficamos cegos à nossa cegueira" -, tem início um ponto que se repete muitas vezes ao longo do livro: a divisão do trabalho mental entre o Sistema 1 e o 2, que é muito eficiente, pois "esse intercâmbio minimiza esforços e otimiza a performance".
Depois de introduzir outro tema que será abordado sob diferentes ângulos e profundidades ao longo do texto, o das "ilusões", vem o segundo capítulo, que versa sobre "atenção e esforço".
Uma vez mais o Sistema 1 vence na maioria dos casos, pois não requer o esforço, por vezes intenso, de manter a trabalhar na memória diversas ideias que demandam várias ações, que precisam ser organizadas e combinadas seguindo certas regras. Isso faz com que as pessoas busquem inicialmente usar o Sistema 1 e mesmo quando são obrigadas a passar para o 2, tendem a retornar para o 1 logo que o panorama clareia um pouco e sugere que o Sistema 1 pode dar conta.
O capitulo 3 discute o fato de que quando o Sistema 2 está muito ocupado as pessoas tendem a ter certa preguiça de empregá-lo e a retornar para a tranquilidade do Sistema 1, inclusive usando a "máquina de associações" naturais que pré-existem no inconsciente. Dessa forma, a "história" construída pelo 1, se não revelar nenhuma grande inconsistência aparente, é aceita como verdade pelo 2.
No quinto capítulo é apresentado o conceito de "conforto cognitivo", que oscila entre o "fácil" e o "tenso", o que mais uma vez favorece a rapidez e a facilidade automática do Sistema 1, mas traz com ele alguns perigos que podem afetar a precisão da análise, a lógica das conclusões e induzir a erros. Entre esses perigos de tender para o conforto cognitivo, está a ilusão da lembrança e a ilusão da verdade, que podem distorcer de forma importante as conclusões derivadas desse verdadeiro "prazer do conforto cognitivo".
Após lembrar, no capítulo 6, que a principal função do Sistema 1 é o de manter e atualizar um modelo de nosso mundo normal, que define e representa o que é "normal" para cada um de nós, nem sempre abrindo o espaço necessário para as surpresas e as causas das mudanças, Kahneman aborda no sétimo capítulo alguns fenômenos fundamentais em nosso processo de pensamento, que cria e mantém algo como "uma máquina de pular para as conclusões" que podem ser precipitadas e não estressar todo o espectro de uso do Sistema 2.
Depois é apresentado outro conceito seminal do livro, o WYSIATI - What You See Is All There Is, ou seja, "o que você vê é tudo que existe". Esse comportamento, tanto muito comum como de grande facilidade operacional no dia-a-dia de qualquer pessoa tem seus riscos, porém, como o de gerar excesso de confiança em uma análise e conclusão, que podem não ser as corretas; ou de criar o efeito de "moldura limitada", que simplificam o processo analítico e conclusivo a uma parte ou partes e não ao todo da questão; e a negligência sobre o valor da base de análise, que começa a gerar distorções desde o princípio, pois parte de uma base equivocada.
Após versar no capítulo oitavo sobre como os processos de julgamento ocorrem na mente das pessoas, Kahneman dedica o último capítulo da primeira parte a entrar nos mecanismos heurísticos, que facilitam esses processos trocando as perguntas mais abrangentes e complexas por "perguntas heurísticas", que são mais simples e fáceis de responder justamente porque empregam mais a lógica do Sistema 1 do que do 2.

 

Heurística e vieses

 

O capítulo 10, o primeiro da segunda parte de livro, trata da "lei dos pequenos números", que analisa nossa tendência de aceitar informações estatísticas com base em pequenas amostras, mesmo que elas não tenham a confiabilidade adequada para nos dar segurança sobre as circunstâncias a serem consideradas. Desse modo a possibilidade de avaliarmos e decidirmos com viés é grande.
Da mesma forma, como se apresenta no capítulo seguinte, temos a tendência de buscar e confiar em "âncoras" capazes de servir como ponto de apoio para nossas análises e decisões. Se dermos sorte de termos uma boa âncora, tenderemos a acertar. Se for o contrário, vamos errar convictos de que estamos acertando.
No capítulo 12 o tema tratado é o da "ciência da avaliabilidade". Mais uma vez, se o que estiver disponível for correto, provavelmente acertaremos. Se o que estiver às mãos estiver errado ou com fortes vieses, o que vier em seguida sofrerá dessa distorção.
Na sequencia, o capítulo 13 é o que faz a relação entre avaliabilidade, emoção e risco. A tendências das pessoas é de combinar a disponibilidade da informação com o que desperta mais suas emoções, o que leva a maximizar certos fatos e situações e minimizar outros, gerando um evidente risco de decisões enviesadas e equivocadas.
Um atenção particular é dada ao conceito de risco, que é uma invenção humana e cujas graduações, na linha de maior ou menor, real, objetivo e assim por diante são, de fato, inexistentes, pois derivam justamente de nossas emoções e vieses. E, ainda pior, mesmo os assim considerados "experts" em alguma área também estão sujeitos ao impacto da disponibilidade, das emoções e dos vieses.
Isso faz com que um assunto abordado com maior ênfase pela mídia, por muitos de seus veículos e por mais tempo acabe sendo inflado e gerando uma "cascata" ou "avalanche" de informações e opiniões, para o bem ou para o mal, independente de sua realidade objetiva.
Nos dois capítulos que seguem Kahneman entra na questão da "ignorância" e da "preguiça", tanto do Sistema 1 como do 2, pois geralmente o 1 propõe uma bobagem pouco relevante e contamina o 2, que processa a informação em uma base distorcida e nem sempre é capaz de corrigir o rumo. O autor também discute sobre o fato de que frequentemente, nessa dinâmica entre os dois sistemas, a disponibilidade, a emoção e os vieses, "menos é mais", ou seja, nossa mente tem maior capacidade de raciocínio e de decisão quando trabalha com uma quantidade limitada de variáveis.
No capítulo 16 o ponto em análise é o de que "as causas enganam as estatísticas", ou seja, quando existe uma crença arraigada em algum fato ou circunstância a probabilidade dessa pré-crença contaminar o processo e as conclusões é bem grande. É a origem dos estereótipos e de suas decorrências, em geral negativas, que se sucedem.
O ponto seguinte a ser abordado é o da "regressão ao significado", que pode ajudar a mudar os processos de pensamento para "limpar" a área e levar a decisões mais precisas. Kahneman lembra, nesse particular, de um episódio do período em que estava na Força Aérea Israelense, quando já atuava como psicólogo e trabalhava no treinamento de jovens cadetes aviadores. Diante de sua crença de que "recompensas são melhores para aprimorar a performance que as punições", um instrutor com maior experiência ponderou que ao ter uma manobra elogiada, o treinando pode cair no excesso de confiança, enquanto que uma análise crítica tende a fazê-lo melhorar.
No capítulo 18 o assunto é como "domar" as predições intuitivas, que são automáticas e inevitáveis e podem ser tanto um bom começo para o Sistema 2 elaborar sobre elas como uma corrente de indução ao erro, se uma análise crítica mais apurada não for aplicada.  Sem esse cuidado, pode-se facilmente cair no excesso de confiança, à qual é dedicada a terceira parte do livro.

 

Excesso de confiança

 

A "ilusão do entendimento" é o capítulo que abre esta etapa da obra, que começa com um conceito de Nassim Taleb sobre a "falácia da narrativa", que nos induz a acreditar em uma explicação feita através de uma historia bem contada, que inclusive pode ser estruturada pelo nosso próprio pensamento na ânsia de entender passado e presente com base no que conhecemos, aplicando nossos vieses e conclusões heurísticas.
Assim, criamos um "efeito de halo que nos ajuda a manter as narrativas explanatórias simples e coerentes, exagerando a consistência das avaliações: pessoas boas fazem apenas coisas boas e pessoas ruins são todas ruins".
O cerne da ilusão do entendimento "é que acreditamos compreender o passado, o que implica que o futuro também deva ser conhecível, mas na verdade compreendemos o passado menos do que acreditamos compreender", explica Kahneman, que em seguida desenvolve raciocínios sobre os "custos sociais da retrospectiva", do qual se pode selecionar três afirmações bastante relevantes:
"A mente que formula narrativas sobre o passado é um órgão criador de sentido. Quando um evento imprevisto ocorre, imediatamente ajustamos nossa visão de mundo para acomodar a surpresa.
"Uma limitação geral da mente humana é sua capacidade imperfeita de reconstruir estados passados de conhecimento, ou crenças que depois mudaram. Uma vez tendo adotado uma nova visão do mundo (ou de qualquer parte dele), você imediatamente perde muito de sua capacidade de recordar em que costumava acreditar antes de mudar de ideia.
"Sua incapacidade para reconstruir crenças passadas inevitavelmente o levará a subestimar em que medida você foi surpreendido por eventos passados".
Fechando esse capítulo, o autor debate dois exemplos de como essa avaliação imperfeita do passado compromete o entendimento do presente e as decisões sobre o futuro. Usa, para isso os livros O Efeito Halo, de Philip Rosenweig, e Feitas para Durar, de Jim Collins e Jerry I. Porras, que oferecem uma visão esquemática do sucesso, que são úteis, mas não podem ser encaradas como uma receita absoluta, uma vez que em cada nova situação há a probabilidade da ocorrência de surpresas. Como lembra Kahneman, "na presença da aleatoriedade, padrões regulares só podem ser miragens".
No capítulo 20 o tema é "a ilusão da validade" e discorre sobre os processos mentais de validação das nossas crenças, análises e decisões. Logo no começo, é lembrado que o Sistema 1 é feito para pular para conclusões a partir de pequenas evidências, sem nem mesmo calcular o tamanho do pulo. Isso se dá basicamente ao fenômeno já explicado de WYSIATI (What You See Is All There Is).
Em seguida é utilizada a situação de decisões sobre o mercado de ações, onde fica evidente a tese de que na maior parte das vezes a ilusão da validade ocorre, tanto nos processos mais simples e intuitivos como nos mais sofisticados e tecnicamente amparados.
Ao final, o autor destaca que as previsões humanas estão sempre sujeitas a erro, inclusive porque o mundo é realmente difícil, e retira duas "lições" dessa situação: "a primeira é que os erros de previsão são inevitáveis porque o mundo é imprevisível. A segunda é que não se deve confiar numa convicção muito subjetiva como indicativo de precisão, pois pouca convicção pode ser mais informativa".
Intuições vs. fórmulas é o tema abordado no capítulo que segue e onde, após a discussão de prós e contras, bem como relatar os debates históricos sobre o assunto, Kahneman finaliza com duas frases bem significativas:
"Sempre que podemos substituir o julgamento humano por uma fórmula, devemos ao menos levá-la em consideração.
“Ele acha que seus julgamentos são complexos e sutis, mas uma combinação simples de pontuações provavelmente daria mais resultado.”
No capítulo 23 o autor relata uma experiência vivida com seu colega Amos em Israel há anos atrás, no qual ambos se envolveram na definição de um currículo sobre como ensinar julgamento e decisão no ciclo de ensino médio. Para fazer curta uma história relativamente longa: não deu certo, apesar da qualidade dos especialistas envolvidos e do entusiasmo inicial, suportado pelo então ministro da Educação daquele país. Depois de oito anos de discussões o processo foi abortado e Kahneman lembrou do valor da "visão de fora", pois no segundo ano do processo ele tinha se consultado com uma pessoa mais experiente que alertara que o desafio era muito complexo e demorado, o que levaria à uma mudança de circunstâncias ao seu término. Como observou, ele e seus companheiros daquela jornada haviam sido tomados por outra situação bastante comum aos humanos: a "perseverança irracional".
Ainda ao final do capítulo anterior e no decorrer do 24o, o autor discute a "falácia do planejamento" e a aplicação do conceito de "visão de fora" das análises e decisões empresariais.
Uma vez mais, esse é o campo onde a avaliação e a decisão das mentes humanas falha bastante, pois existe a combinação da tendência de simplificação do Sistema 1 interferindo no Sistema 2, do excesso de confiança e otimismo e da minimização das ações da concorrência e dos obstáculos.
Uma solução parcial, para evitar justamente a perseverança irracional, está no uso da visão de fora, de tempos a tempos do processo, de modo a aplicar, eventualmente, a técnica de "premortem", que é a de analisar o projeto não sobre a perspectiva do sucesso, mas de seu fracasso.

 

Escolhas

 

A quarta e penúltima parte do livro é dedicada à detalhada análise das escolhas feitas pela mente humana, através de remissões e considerações sobre diversas abordagens sobre esses processos nos últimos três séculos e, em especial, nos últimos 100 anos.
O primeiro cientista a pensar no tema foi o suíço Daniel Bernoulli, ainda em 1738, que demonstrou que o processo de decisão sobre o que tem maior valor monetário para uma pessoa é relativo tanto ao grau de sua riqueza como à proporcionalidade do ganho ou perda e à forma com que a escolha a ser feita é apresentada.
O alemão Gustav Fechner cerca de um século depois demonstrou que a avaliação da energia de uma luz, a frequência de um tom e o volume de dinheiro depende da experiência subjetiva do brilho, da altura do som e do valor relativo.
No capítulo 26 é abordado a teoria de Harry Markewitz, Nobel de Economia, que demonstrou que considerações e decisões financeiras têm mais a ver com as alterações do nível de riqueza das pessoas do que com o estado absoluto de sua riqueza.
O conceito de aversão às perdas é tratado no capítulo 28 e é apresentado como a mais significativa contribuição da psicologia à economia comportamental. Diversos cientistas trabalharam nessa senda e destacaram aspectos como o fato de objetivos serem pontos de referência e sobre a força da defesa do status quo.
No capítulo seguinte é debatida a técnica, muito utilizada em fórmulas de processos de decisão, que é a dos padrões de quatro quadrantes, onde se pode classificar análises e decisões utilizando fatores como alta vs. baixa probabilidade e ganhos vs. perdas.
A raridade da ocorrência de certos eventos e seu impacto desproporcional nos processos de análise e decisão é abordado no capítulo 30, pois eles geram superestimação e exageros, seja para o bem, como ganhos na loteria, seja para o mal, como tsunamis ou queda de aviões.

 

Dois eus

 

Na parte final do livro, é debatida a questão dos "dois eus" que operam em dialética na mente das pessoas, conceito que nasceu com Jeremy Bentham, ainda no século XVIII, explícito nas duas motivações básicas do ser humano, dor e recompensa, que o próprio autor definiu como umautility, tanto para entender as circunstâncias como para conduzir nossos processos decisórios.
Após lembrar que nos últimos 100 anos o conceito tinha sido revisitado e expandido por diversos estudiosos, Kanehman pontuou que fez um adendo que considerou importante, ao propor uma subdivisão, aexperienced utilily, que define nossas memórias e crenças, e a decision utility, que conduz nossas escolhas.
Nos quatro capítulos seguintes é estressada essa concepção e de como tudo isso operacionaliza os mecanismos de pensar e decidir que empregamos no nosso dia a dia, tanto para as coisas banais como as eventuais e mais relevantes para nosso futuro.
No capítulo final do livro, o autor faz referência ao conceito de Econs e Humans, que tem sido a base do pensamento da economia comportamental, derivado em boa parte das teses de Milton Friedman e que foi objeto de um excelente livro, Nudge, de Richard Thaler e Cass Sustein (resenha já feita nesta série do Conteúdos CENP).
Em seguida, conclui a obra repassando os conceitos do Sistema 1 e Sistema 2 e como eles interagem com os "dois eus" de cada um de nós.

 

O best-seller global esteve por muitos meses na lista dos mais vendidos em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde foi publicado pela Objetiva, e resume décadas de estudos do autor e de alguns de seus colaboradores em universidades de Israel e dos Estados Unidos, em especial Amos Tversky, a quem o livro é dedicado.
A semente do pensamento que redundou no livro anos depois foram dois artigos da dupla, o primeiro, de 1974, saiu na revista Science e teve o título de "Judgment under uncertainty: heuristics and biases"; o segundo, um paper apresentado e premiado pela American Psychological Association em seu encontro anual de 1983, foi denominado "Choices, values, and frames(ambos os textos estão no apêndice da obra).
O livro tem cinco partes: Dois Sistemas, Heurística e Viéses, Excesso de Confiança,  Escolhas e Dois Eus. De suas quase 500 páginas, mais de 30 são notas com a remissão a outras obras e teorias, substanciando a grande erudição de seu autor sobre o tema e dando o caminho para a ampliação do conhecimento sobre os muitos pontos específicos abordados.